Você está aqui: Página Inicial / Notícias / Varredura de radar revela as riquezas da Amazônia

Notícia

Varredura de radar revela as riquezas da Amazônia

{mosimage}No prédio de arquitetura futurista onde funciona o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), em Brasília, imagens de satélite fixadas nas paredes guardam informações estratégicas. "Conhecer a floresta é exigência mínima para valorizá-la economicamente e promover seu uso sustentável", afirma o diretor de produtos, Wougran Galvão.

Ele aponta no mapa para um pedaço ainda desconhecido da Amazônia, correspondente a 1,8 milhão de quilômetros quadrados, quase um terço de sua área total. Próxima aos limites fronteiriços, a região em foco até hoje não tem cartografia na escala necessária para sua exploração e começa a ser rastreada por aeronaves dotadas de radares e sensores para a delimitação mais precisa de suas características e potencialidades.

A iniciativa faz parte de um novo mapeamento que abrange toda a Amazônia Legal, na escala de um para 100 mil (um centímetro de mapa para cada quilômetro de território), realizado por tecnologia de radar. "Da área total, 3,4 milhões de quilômetros quadrados já tinham sido cobertos no passado por mapas nessa escala, mas as informações foram obtidas nas décadas de 1970 e 1990 e estão defasadas e incompletas", justifica Galvão. "A nova cartografia não mostra detalhes de alta resolução espacial, mas permite uma visão regional do território como suporte ao poder público no planejamento de estradas e outras obras de infraestrutura, além da expansão agrícola e impactos na cobertura florestal", explica o diretor.

Com investimento de R$ 350 milhões, metade já executado pelo governo federal para compra de equipamentos, modernização tecnológica, operações de campo e sobrevoos, o projeto está previsto para ser concluído em 2014. "Será acelerado, porque o assunto é prioritário", revela Galvão.

Na faixa amazônica a ser desvendada, o Exército realizou sobrevoos na floresta mais densa, cobrindo 865 mil quilômetros quadrados com imagens, com uso de aeronave da empresa de sensoriamento remoto Orbisat, que desenvolveu a tecnologia de radar e tem participação acionária do BNDES, com instalações industriais em Manaus e centros tecnólogicos em Campinas e São José dos Campos. O método possibilita medir a altura das árvores e delinear o relevo da região. "Pela primeira vez, teremos em mapa a estratificação da floresta", diz o diretor.

A expectativa é a injeção de R$ 1,1 bilhão de investimentos privados a partir das informações geradas pelos novos mapas, em cinco anos. "A Amazônia é mais rica do que se imagina", estima Galvão. Ao custo de R$ 178 milhões, o projeto inclui a varredura geofísica de 600 mil quilômetros lineares mediante aeronaves com sensores, em sobrevôos a 100 metros de altitude, para a identificação das propriedades das rochas. A informação comporá mapas geológicos que poderão resultar em novos pedidos para prospecção mineral.

"A cartografia permitirá descobrir novas vocações regionais", diz. Além do potencial mineral, está sendo mapeada a dimensão exata da rede fluvial da Amazônia, por onde trafegam produtos responsáveis por 95% do PIB da região. As novas cartas náuticas estão a cargo da Marinha, que tem R$ 43 milhões para construir em estaleiros nacionais cinco navios equipados para a tarefa. "Toda a malha de rios será pela primeira vez conhecida em detalhes que permitem avaliar o padrão de drenagem."

Mais R$ 30 milhões destinam-se a melhorar o sistema de radares e sensores meteorológicos, tornando-o mais apto a monitorar eventos climáticos extremos. O projeto é resultado da modernização do parque tecnológico montado pelo antigo Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), idealizado na década de 1990 pelas forças armadas para monitorar o espaço aéreo na floresta amazônica. Foram adquiridos radares, sensores, aeronaves e outros equipamentos, mediante financiamento externo de US$ 1,4 bilhão.

Criado em 2002, o Censipam articula as diferentes esferas de governo para o uso desse sistema. No campo do sensoriamento remoto, como suporte a operações policiais, são identificadas atividades ilícitas, a exemplo do tráfico de drogas. Diante da maior demanda ambiental, ganham força as atividades de proteção contra desmatamento. Em 2008, com base em imagens captadas por radar com resolução de 18 metros e sem risco de falhas pelo excesso de nuvens, o Ministério do Meio Ambiente mapeou os 36 municípios que mais desmatam a Amazônia. Sob embargo do governo federal, as prefeituras foram incentivadas a implantar soluções econômicas menos destrutivas, no chamado projeto Arco Verde.

Novo mapeamento foi realizado em 2009, abrangendo 43 municípios campeões na derrubada de árvores. "E agora, em novembro, lançaremos uma missão aérea para fazer um raio X inédito do desmatamento em toda Amazônia Legal com imagens de radar", anuncia Galvão. A operação exigirá uso intenso das aeronaves R99, fabricadas pela Embraer com essa finalidade, e modernização da central de processamento de dados, a um custo total de R$ 5 milhões.

As imagens serão distribuídas gratuitamente a Estados e municípios para o controle da cobertura florestal, recursos hídricos e expansão urbana. Uma única imagem de radar de 2,5 mil metros quadrados comprada no mercado privado pode custar US$ 3 mil. "O desafio é a qualificação das prefeituras para a análise dos dados", admite Galvão, lembrando que até o momento 400 gestores municipais foram capacitados pelo Censipam.

Os dados oficiais sobre desmatamento, processados periodicamente pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) a partir de imagens do satélite Landsat, esbarram no problema das nuvens e têm margem de erro entre 7% e 10%.

Novas antenas conectam as áreas isoladas

Refém de intermediários para comercializar borracha, castanha e outros produtos florestais, a comunidade extrativista de São Francisco, no município de Assis Brasil (AC), tríplice fronteira brasileira com Peru e Bolívia, encontrou na comunicação por satélite o caminho para escoar a produção diretamente a compradores no exterior, com faturamento cinco vezes maior. Graças a um telecentro instalado na localidade pelo Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), os produtores tiveram acesso a telefonia e internet - e se livraram dos atravessadores. Montado há mais de uma década, o sistema será agora substituído por tecnologia de última geração que garante velocidade e eficiência na transmissão, aumentando as chances de negócios.

A comunidade acriana receberá uma das 1033 antenas de comunicação, chamadas VSAT, adquiridas pelo governo federal ao custo de R$ 9 milhões junto à empresa israelense Gilat Satellite Networks, vencedora de uma licitação da qual participaram 16 concorrentes internacionais. "Os equipamentos embarcaram nesta semana para o Brasil e começarão a ser instalados em novembro para conectar regiões isoladas", informa Cristiano Cunha, diretor técnico do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

"É como migrar do disco de vinil para o DVD", compara Cunha, ao destacar a evolução técnica dos novos modelos. Ele justifica: "Como na informática, também nas telecomunicações o ritmo dos avanços é muito rápido e estávamos com defasagem de 15 anos, ou cinco gerações tecnológicas, a contar pelas primeiras antenas instaladas no Projeto Sivam".

O serviço de voz VOIP, por exemplo, já existente na aparelhagem antiga, era de tecnologia fechada - ou seja, só o fornecedor dominava a solução. Além disso, "a placa apresentava constantes problemas devido ao calor na Amazônia". No novo modelo, ao contrário, o serviço de voz é digital e integra equipamento pequeno e leve.

O maquinário atual tem velocidade de transmissão até 250 vezes maior. "Mas o que importa é a garantia da qualidade e constância no tráfego de dados", explica Cunha. Serviços como vídeo-conferência, impossível no sistema antigo em substituição, poderão ser utilizados pela Polícia Federal, Ibama e outros órgãos em regiões distantes da Amazônia. Voz e dados chegarão às centrais de processamento em Brasília sem o risco de flutuações na linha, como acontecia anteriormente. "O novo equipamento tem procedimentos inteligentes e se adapta a interferências, aumentando ou reduzindo a potência ou a velocidade da transmissão conforme a quantidade de nuvens", acrescenta o diretor.

Duzentas antenas serão instaladas em comarcas da região Norte, a partir de convênio com o Conselho Nacional de Justiça, permitindo o fluxo dos processos judiciais via computador até as capitais. Sem o sistema, em municípios como Uarini e Jupurá, no Amazonas, os documentos precisam ser levados para o Tribunal de Justiça em Manaus em voos fretados de alto custo ou longas viagens de barco, que podem durar quatro dias. A transmissão se dará mediante o satélite C-1, da empresa Starone, do grupo Embratel. (foto: Rui Baron)

Valor Econômico