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Experiência inédita: cientistas caçam raios no céu da Amazônia

O Primeiro Experimento de Raios Induzidos na Amazônia, reúne mais de 30 cientistas e pesquisadores do Brasil e do Exterior.

O Estado do Pará está sediando uma experiência científica inédita em toda a região Norte. Trata-se do Primeiro Experimento de Raios Induzidos na Amazônia, ação que reúne mais de 30 cientistas e pesquisadores do Brasil e do Exterior. A partir desta quarta-feira, 23 de janeiro, o grupo vai trabalhar em regime de plantão constante durante um mês em uma área reservada cedida pela Aeronáutica no município de Benfica, região metropolitana de Belém. Lá os pesquisadores vão monitorar os campos elétricos produzidos pelas nuvens. Quando os cálculos indicarem forte probabilidade da ocorrência de descargas atmosféricas serão lançados pequenos foguetes ao céu, atingindo até 800 metros de altura. Esses foguetes estarão ligados ao solo por um fio metálico. Com essa prática, os foguetes vão induzir os raios a terem contato com o solo em um ponto previamente determinado, onde equipamentos sensíveis irão medir características das descargas, como intensidade da corrente, campo elétrico e campo magnético. Essas informações permitirão aos cientistas realizarem estudos diversificados, indo desde trabalhos acadêmicos a ações com aplicação direta à vida da população.

“É necessário, por exemplo, que a Defesa Civil saiba quando haverá uma grande quantidade de raios”, diz a professora Brígida Rocha, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que desde 1998 realiza estudos sobre as descargas atmosféricas na região. O Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) está se preparando para aperfeiçoar os alertas emitidos para a Defesa Civil, diz Carlos Simões Pereira, da Coordenação de Infra-estrutura tecnológica da instituição. A meta é permitir que a Defesa Civil possa emitir, com antecedência, alertas sobre fortes tempestades, evitando a exposição da população aos raios.

 O experimento servirá também para aperfeiçoar a qualidade dos dados obtidos pelos 12 detectores de raios que o Sipam tem no Pará, Maranhão e Tocantins (rede que será ampliada para toda a Amazônia, com a aquisição de mais de 20 novos sensores). A presença dessa rede de detectores de raios foi preponderante para que Belém fosse escolhida para a realização do experimento. Além disso, na Amazônia as nuvens associadas à ocorrência de raios formam-se com maior freqüência e que em outras regiões do planeta.

Os dados coletados irão subsidiar também trabalhos de fabricantes de sistemas de proteção das redes distribuidoras de energia elétrica, reduzindo prejuízos e tornando mais eficaz e seguro o fornecimento de eletricidade. “Poderemos desenvolver sensores mais adequados à realidade da nossa região”, diz a professora Brígida. Da mesma forma que serão utilizados para melhorar a proteção da rede de distribuição de energia elétrica, os dados obtidos no experimento serão aplicados também no aprimoramento da segurança da rede de telefonia. O estudo da física das nuvens poderá subsidiar também o estudo das mudanças climáticas.

Tão ampla é a aplicabilidade do experimento que sua realização tornou-se possível somente a partir da união de diferentes instituições. Estão atuando em parceria no projeto a Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), Comando da Aeronáutica, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de São Paulo (USP), Governo do Pará, Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte), Centrais Elétricas do Pará (Celpa) e a empresa Hindelet (que trabalha com proteção elétrica e pára-raios).

Além de inédito na Amazônia, trata-se ainda do primeiro experimento de indução de raios com tecnologia 100% nacional. José Pissolato Filho, da Unicamp, coordenador-geral do projeto, explica que pesquisas nessa área começaram a ser realizados por pesquisadores brasileiros em 1998, mas nunca na Amazônia. Aos poucos foram sendo desenvolvidas soluções brasileiras, até ser atingido o máximo grau de nacionalização registrada na experiência que começa a ser executada no Pará. Foguete, bobinas e motores foram desenvolvidos no Brasil. Pissolato explica que o lançamento de cada foguete tem custo de quase R$ 2 mil. No total, cerca de R$ 500 mil já foram investidos desde o início dos trabalhos com raios induzidos no Brasil. Ao final do experimento será realizado um seminário para a apresentação e discussão dos resultados.

Ascom/Censipam