Rondoniense respira fumaça PDF Imprimir E-mail
Sipam na Mídia
18-Ago-2010

Os dezesseis dias de agosto já é o período de maior incidência de queimadas no ano em Rondônia. Até ontem foram registradas no mês, 5.346 focos de queimadas no estado, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os focos colocam Rondônia entre os cinco estados brasileiros que mais queimam no mês. Foram registrados no Brasil até agora em agosto, 108.029 focos de fogo.  O campeão de queimadas no país é o Pará, com 31.755, seguido do Mato Grosso 24.184, Tocantins 14.495 e em quarto Maranhão, com 5.741 focos de queimadas. Em 2009, na mesma época, Rondônia era apenas o décimo terceiro estado em número de queimadas, com 532 focos.

A situação é tão critica em Rondônia que os números de queimadas de agosto são mais que o dobro de todo mês de julho, onde foram registrados 2.276 focos. Se comparado agosto com o mesmo período do ano passado o aumento chega a 904%. Os municípios campeões de queimadas são Porto Velho com 1.422, seguido de Cujubim com 656, Vilhena, 477, Buritis, 335 e Candeias do Jamari com 314. A Capital, nos 16 dias de agosto de 2009 havia contabilizado 196 focos.

O porto-velhense já respira 20 vezes mais monóxido de carbono que a média normal. Hoje calcula-se em 2 mil ppb (partes por bilhão) de monóxido de carbono na atmosfera, quando o normal seria 100 ppb. Na última quarta-feira, segundo o Sipam, o percentual de CO na atmosfera era de 15.000,  ou 15 vezes a média considerada normal. De acordo com satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) ontem foram detectados 465 focos de calor em Rondônia, destes 24% só no município de Porto Velho. O aumento é significativo, no ano passado, neste mesmo período, foram detectados  110 focos de calor em Rondônia.

Força tarefa

Para avaliar a situação e tomar as providências necessárias, todos os órgãos envolvidos com a preservação do meio ambiente, e outros como Idaron, Incra,  Associação Rondoniense de Municípios (Arom), Base Aérea e 17ª Brigada de Infantaria de Selva (BIS), reúnem-se hoje para formar uma força tarefa e traçar uma estratégia de combate ao fogo e prevenção de novos focos de calor. ”A situação chegou a um ponto limite e  fomos procurados pela Secretaria Nacional de Defesa Civil para saber se algum município já havia decretado estado de alerta em Rondônia. Vamos reunir todos os órgãos para fazer uma ação conjunta e também precisamos que a população colabore e deixe de utilizar o fogo para limpeza de áreas”, informa o sub-diretor da Divisão de Planejamento e Operacionalização de Defesa Civil, sargento Sílvio Humberto Rodrigues da Silva.

O superintendente do Ibama em Rondônia, César Luiz Guimarães, alertou no início de julho, que estava preocupado com as queimadas no Estado. “A tendência é que voltemos aos patamares críticos de três anos atrás. Tivemos dois anos de queda nos focos, mas a eminência de números altos de queimadas é cada vez mais próxima. Vamos trabalhar para que isso não aconteça”, disse.

O Ibama desde julho está no combate aos incêndios com 240 brigadistas. “O nosso objetivo agora é tentar frear as queimadas com todo o apoio que conseguirmos. Precisamos abater os focos a todo custo, depois vamos pensar em notificar e multar, mas agora essa é a nossa meta”, alegou.

Previsão é de calor e pouca chuva

De acordo com o meteorologista Luiz Alves dos Santos, 28, não há previsão de chuvas para os próximos dias. A partir do dia 23 deve haver algumas pancadas isoladas de chuva, mas nada significativo. Serão chuvas de curta duração, insuficientes para limpar o céu da fumaça que cobre Porto Velho há dias.

Há três meses sem uma chuva significativa (acima de 10 mm) a tendência é que as temperaturas aumentem acima dos 35°C. A umidade relativa do ar deverá baixar até os 15%. Situação atípica, mesmo para a época, já que nesse período é comum a umidade se manter em até 40%. O normal para manter uma boa saúde, com boas condições climáticas é que a umidade relativa do ar supere os 50%.

As chuvas esperadas para a semana que vem não devem ultrapassar os 5mm, isso no acumulado durante toda a semana, de acordo com o meteorologista. A fumaça extremamente concentrada na Capital, ontem, foi fruto não apenas das queimadas, mas também de uma inversão térmica e de uma massa de ar polar que invadiu a região.

Aeroportos

Segundo Jailson Mendes de Araújo, superintendente da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero) em Porto Velho, nos últimos 15 dias houve dois cancelamentos de vôos. Um foi na sexta-feira da semana passada e o outro foi ontem, às 7h da manhã, quando o Aeroporto Internacional Governador Jorge Teixeira ficou operando no mínimo durante uma hora. Também houve alguns atrasos em decorrência da fumaça que paira em toda a Capital.

O vôo que foi cancelado ontem era procedente de Manaus com destino a Cuiabá. A aeronave precisou alternar para Ji-Paraná. De acordo com o superintendente, não está descartado o fechamento do aeroporto caso a fumaça continue da forma como está. “As queimadas estão acontecendo em torno da área do aeroporto e se concentram em cima do aeródromo. O que dá para fazer é esperar chover e pedir para a população parar de queimar”.

Segundo Jailson Mendes, as queimadas influenciam mais no pouso que na decolagem. O perigo é a falta de visibilidade. “Nas duas últimas semanas tivemos dois grandes incêndios”. Para os passageiros que precisam esperar mais por causa de atrasos nos vôos são disponibilizadas salas no terminal de embarque, onde as pessoas podem descansar enquanto esperam a chegada das aeronaves.

Cuidados que evitam a desidratação

Para amenizar os sintomas da fumaça, a diretora do Hospital Infantil Cosme e Damião, Marilene Penati, recomenda que as pessoas bebam bastante líquido, principalmente água e sucos naturais e mantenham uma alimentação balanceada. Também devem lavar os olhos e as narinas com soro fisiológico, usar roupas leves, evitar refrigerantes e enlatados.

Segundo Marilene é preciso conscientizar rapidamente a população sobre os riscos que a fumaça das queimadas causam à saúde. “Está muito quente. Há risco, principalmente, de infecções gastrointestinais e agravamento de doenças respiratórias. É preciso que as autoridades tomem providências”, enfatizou.

O armador Ricardo Santos Lima, 25, diz que não pode fazer nada com relação à fumaça, só pode inalar mesmo. “É horrível”. Ele procura tomar bastante líquido para se hidratar. Já o estudante de 15 anos, Kauã Eduardo Candeira, procura se cuidar um pouco mais. Ele tem rinite alérgica, asma e sofre constantemente com falta de ar, principalmente à noite. A mãe de Kauã também sofre de asma crônica, os dois têm tido recaídas constantes em decorrência do aumento das queimadas na Capital.

Fiscalização cai 32% na Capital

Com um corpo fiscal composto por apenas oito funcionários, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema) de Porto Velho não consegue fiscalizar o município de forma adequada. Considerado como um dos municípios que mais desmatam no Brasil, a capital de Rondônia tem 34 mil quilômetros quadrados de área. O município é maior que os Estados de Sergipe e Alagoas.

Mesmo contando com uma área tão extensa e com uma população de mais de 400 mil habitantes a Sema só age após denúncia, e como a população passou a denunciar menos os atos de crimes ambientais por incêndio ou queimadas urbanas e rurais, naturalmente o número de fiscalizações caiu na mesma proporção.

De acordo com os dados da secretaria, houve uma queda de 32,58% no número de denúncias de sinistros envolvendo fogo. Em todo o ano de 2009 houve 132 denúncias de queimadas, seja ela florestal ou residencial. No período de janeiro a julho a sema registrou um total de 89 denúncias, onde foram emitidos 26 autos de infração (multas), 47 autos de notificação e 16 orientações verbais.

Em comparação com o primeiro semestre de 2010 houve uma queda acentuada no número de fiscalizações. No período entre os meses de janeiro e julho do corrente ano foram registradas 60 denúncias, portanto, foram feitas apenas 60 fiscalizações em áreas de incêndios, onde foram emitidos 12 autos de infração, 45 autos de notificação e três orientações verbais.

Segundo a diretora de departamento e monitoramento fiscal da Sema, Lucilene Caldeira, a fiscalização só é feita quando há a denúncia, pois o posto fiscal da secretaria é muito pequeno. O posto conta apenas com oito fiscais para atender, fiscalizar e investigar denúncias de todos os tipos de crimes ambientais do município, distritos e subdistritos subordinados à administração da Capital.

Queimar é crime

A Sema alerta a população para não fazer qualquer tipo de queima. O lixo doméstico deve ser juntado, acondicionado em sacos plásticos e enviado para a lixeira. Não se deve fazer uso de fogo para limpar terrenos ou para queimar resíduos. Qualquer tipo de queimada é crime punido por Lei e gera multas que variam de acordo com o tipo de queima realizada. 

Diário da Amazônia

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