Animais morrem de sede e igarapés secam PDF Imprimir E-mail
Sipam na Mídia
26-Jan-2010

A equipe de reportagem da Folha percorreu no domingo cerca de 100 quilômetros no município de Mucajaí, através da RR-325, passando pelas vicinais 14, 16 e 06, que liga o Município a vila Campos Novos. Nessas localidades, apesar dos municípios não estarem entre os sete que decretaram estado de emergência por conta da estiagem, moradores, animais e plantações estão sofrendo com a falta de água.

Nos lotes e sítios visitados a situação é a mesma: a falta de água está afetando diretamente os moradores, as plantações, além dos animais que vagam pelas estradas a procura de água e acabam morrendo. Os que sobrevivem estão com baixo peso, pois o pasto está escasso e seco.

Para tentar minimizar os problemas, os moradores decidiram apelar para serviços particulares, solicitaram o apoio de uma empresa de Manaus que está no local fazendo outro serviço para a escavação de cacimbões. O problema é que nem todos têm condições de arcar com as despesas, uma vez que uma hora de trabalho da retroescavadeira hidráulica custa R$ 350,00. A solução para muitos foi pagar as horas com o próprio gado.

A dona-de-casa Ivone de Sousa Vieira, 36, e o marido fazem parte das dezenas de moradoras da vicinal 14 que contrataram os serviços. “Não temos outro jeito, ou gastamos um pouquinho mais ou perdemos todo o nosso gado. A situação aqui está muito difícil”, reclamou.

Para não ficar sem água em casa, a microscopista e proprietária de um comércio localizado no entroncamento das vicinais 14 e 16 na localidade do Roxinho, Maria Salete Ferreira Lima, 26, mãe de quatro filhos, entre três e 11 anos, falou sobre a dificuldade enfrentada pela família.

“Faz muito tempo que aqui não chove. Escavamos um poço para não ficarmos sem água. Nem mesmo a grande profundidade garante isso. Periodicamente temos que cavar mais para não passar sede, e nem assim a água é de ótima qualidade. Para os animais não morrerem de sede, seremos obrigados a mandar escavar um cacimbão”, disse.

Mas nem todos têm a mesma sorte. A agricultora Gracieli Carlos Rodrigues, 32, ao lado da filha de apenas 3 anos, muito emocionad, disse temer que suas 15 cabeças de gado morram. “Assim como meus vizinhos, eu não tenho condições de contratar a empresa. Estou desesperada. Já não tenho muito e a qualquer momento posso perder tudo”.

Um empresário local, que preferiu não se identificar, contou a cena lamentável que presenciou na semana passada, ao passar por um igarapé na vicinal 14 que estava secando. “Foi muito triste ver aquele monte de peixe e uma arraia adulta morrendo. Infelizmente não pude fazer nada. É um fenômeno da natureza”.

A Folha foi até o igarapé indicado e comprovou que ele está totalmente seco. Todos os animais aquáticos que ali povoavam morreram e foram devorados por aves e outros tipos de animais. Os gados dessa redondeza vagam pela localidade a procura de água e comida.


Prefeito de Mucajaí pode decretar ainda hoje estado de emergência

O prefeito de Mucajaí, Gordo Lopes (PMDB), recebeu ontem um relatório do secretario do município de Agricultura, que percorreu durante 10 dias várias localidades para fazer um levantamento das reais condições que se encontram os moradores, produtores rurais e agropecuaristas da região. Ainda hoje, de acordo com o resultado, o prefeito poderá decretar estado de emergência.

Se decretado, Mucajaí vai integrar uma lista de outros sete municípios que enfrentem situações piores desde o ano passado. São mais de vinte mil roraimenses que sofrem com a forte estiagem ocasionada pelo fenômeno El Niño. Dos quinze municípios, sete já decretaram estado de emergência, quatro deles considerados os mais afetados: São Luís do Anauá, São João da Baliza, Caroebe e Rorainópolis, desde dezembro de 2009, no sul do Estado, além de Uiramutã, Bonfim e Cantá, no início deste ano. O governador Anchieta Júnior (PSDB) assinou os decretos homologando a situação emergencial.

Segundo Gordo Lopes, há 10 dias que o secretário de Agricultura, Neto Cruz, percorre localidades como Tamandaré, Sumaúma, Roxinho entre outras. “As últimas informações que recebi foi de que o estado está se agravando. Por conta disso, após analisar o relatório e comprovar a situação, decidiremos por decretar ou não estado de emergência”, disse o prefeito.

Se decretado, o município vai receber apoio de uma ação conjunta que vem sendo realizado pelos governos federal, estadual e municipal, em favor de centenas de moradores e agricultores que sofrem com a seca, que provocou desde a falta de água potável, falta de comida e água para os animais, além da perda da produção agrícola comercial e de subsistência dessas pessoas.

Conforme o coordenador estadual da Defesa Civil e comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Paulo Sérgio, contatos anteriores já foram feitos com o prefeito de Mucajaí. “Estamos apenas aguardando um documento oficial para enfim solicitarmos os trabalhos de um técnico, que deve emitir um parecer confirmando o pedido, para darmos início aos trabalhos”, disse.

Em São João da Baliza e Rorainópolis, alguns bairros sofrem com a falta de água, uma vez que o abastecimento é feito exclusivamente por poços artesianos, que estão secos. As safras de banana, arroz e milho estão comprometidas.

Em Caroebe, parte da plantação de banana está prejudicada por causa da seca do rio de mesmo nome que abastece a cidade. Outros rios menores da região igualmente estão secos.

O comandante lembrou que em cada município, onde já foi decretado estado de emergência, existe uma base montada da Defesa Civil, que recebe apoio de diversos órgãos ligados direta ou indiretamente aos problemas, tanto municipais quanto estaduais.

Para a falta de água dos animais, que consequentemente perdem peso, as equipes realizam cadastramento dos produtores rurais e os colocados numa lista de prioridade recebem em suas propriedades a construção dos bebedouros para os animais, conhecidos como “cacimbões”, uma espécie de açude um pouco menor.

Com relação à perda da produção da safra agrícola, comercial e de subsistência, que implica na falta de alimento aos moradores das vicinais, o comandante do CB explicou que está sendo elaborado um Relatório Social dessas famílias através de um trabalho de campo. O documento será encaminhado a Brasília, que se responsabilizará pela distribuição das cestas básicas.

Previsão de chuvas só em março

Há seis meses que não são registradas chuvas no município de Mucajaí. Segundo o analista ambiental da Fundação Nacional do Meio Ambiente, Ciências e Tecnologia (Femact), Ramom Alvez, a previsão é que até o mês de março possa chover e, se acontecer, elas ocorrerão abaixo do normal.

Ramom explicou que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), com base na capital, não possui uma estação no município de Mucajai e suas adjacências. De acordo com o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), as últimas chuvas, poucas e rápidas na localidade, foram registradas somente no primeiro semestre de 2009.

“As atividades do fenômeno El Niño no oceano Pacífico ainda são muito fortes, e o período que estamos enfrentando de seca ainda é preocupante” explicou Ramom.

Além da falta de água que tem afetado diretamente os moradores, os animais e as plantações, a Folha presenciou vários focos de incêndio na extensão das vicinais 14 e 16 na comunidade do Roxinho. A maioria deles no leito das estradas. Na vicinal 16, há mais de 400 metros de extensão de mata queimada, próximo inclusive de residências construídas de madeira, que facilmente podem ser destruídas com as chamas.

Também foi observado que a maioria das plantações como as de bananas, que ainda resistem à forte estiagem que assola a localidade, não estão produzindo.

PREVFOGO – Segundo o coordenador do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PrevFogo) da capital, setor ligado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Joaquim Parimé Pereira, atualmente 126 brigadistas combatentes atuam nos cinco municípios atendidos pelo PrevFogo.

Parimé explicou que o PrevFogo é uma força suplementar que atua nas regiões dos municípios de Alto Alegre, Amajari, Mucajaí, Cantá e Pacaraima, onde existem áreas de preservação permanentes, indígenas, áreas protegidas (parques e florestas nacionais e estações ecológicas), margens de rios e matas ciliares. Diariamente boletins são enviados à coordenação, onde toda as áreas atendidas são monitoradas.

Folha de Boa Vista

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